Quando se fala em acessibilidade e neurodivergência em modelos de linguagem, a conversa costuma escorregar para o tom de “nicho”. Parece um grupo pequeno, uma demanda secundária, algo para resolver mais tarde com um botão de ajuda ou uma resposta padronizada.

Os números contam outra história.

Em outubro de 2026, a OpenAI informou que o ChatGPT alcançava 1,2 bilhão de pessoas por semana. Em agosto, o Google informou que o aplicativo Gemini havia ultrapassado 1 bilhão de usuários mensais. As duas métricas não são diretamente comparáveis: uma mede pessoas por semana; a outra, usuários por mês. Ainda assim, elas mostram a escala em que esses produtos já operam.

Uma matriz de clientes ocupa quase toda a cena. Aproximadamente 15% das pessoas aparecem em amarelo, enquanto uma sede fictícia de big tech fica pequena e parcialmente ofuscada na parte inferior.
Ilustração editorial: a empresa parece pequena diante da parcela da própria base que ainda trata como exceção.

O público que desaparece no usuário médio

Do outro lado da conta está a população que costuma desaparecer quando se projeta um “usuário médio”. A Organização Mundial da Saúde estima que 1,3 bilhão de pessoas — 16% da população mundial, ou uma em cada seis — vivem com uma deficiência significativa. É um grupo diverso, formado por pessoas com experiências físicas, sensoriais, intelectuais e psicossociais muito diferentes. O número não descreve uma necessidade única. Descreve a dimensão de uma população que encontra barreiras quando produtos e serviços são construídos para um único modo de perceber, compreender e agir.

Com neurodivergência acontece algo parecido. Uma revisão publicada no British Medical Bulletin considera razoável estimar que 15% a 20% da população pertença a alguma neurominoria, levando em conta condições que se sobrepõem e muitas vezes não são diagnosticadas. Dentro dessa faixa existem realidades distintas. O estudo Global Burden of Disease 2021 estimou 61,8 milhões de pessoas autistas no mundo — aproximadamente uma em cada 127. Uma revisão global estimou a prevalência de dislexia do desenvolvimento em 7,1% entre crianças em idade escolar. Para TDAH, revisões encontram resultados diferentes conforme idade, critério diagnóstico e método de coleta; uma declaração internacional de consenso cita 5,9% entre jovens e 2,8% entre adultos.

Esses percentuais não podem ser somados. Uma pessoa pode aparecer em mais de um grupo, e deficiência e neurodivergência também se cruzam. Por isso, esta pesquisa não apresenta 20% ou 25% como uma prevalência global única e comprovada. Usa essa faixa apenas como cenário de ordem de grandeza: algo próximo de um quinto da população, podendo se aproximar de um quarto dependendo das definições adotadas e das barreiras consideradas.

Mesmo a conta conservadora não cabe na palavra nicho

Se uma base de 1 bilhão de pessoas tivesse uma distribuição semelhante à estimativa de 15% a 20% usada para neurominorias, estaríamos falando de 150 a 200 milhões de pessoas. Aplicada aos 1,2 bilhão de usuários semanais informados pela OpenAI, a mesma faixa representaria 180 a 240 milhões. Isso não mede quantas pessoas neurodivergentes usam ChatGPT ou Gemini. Nenhuma das empresas publicou essa composição demográfica. É uma projeção simples para tornar visível a escala que o desenho de produto precisa considerar.

O ponto também não é dizer que todas essas pessoas encontram a mesma barreira. Algumas dependem de leitores de tela. Outras precisam de uma interface com menos estímulos, de linguagem mais literal, de mais tempo para organizar uma resposta ou de uma transcrição de voz que preserve exatamente o que foi dito. Há quem precise de continuidade durante uma conversa difícil; há quem seja prejudicado quando o sistema interpreta contexto como intenção e interrompe uma tarefa legítima.

Quando essas diferenças ficam para depois, a exclusão aparece em lugares pequenos e repetidos: no botão sem nome acessível, na ajuda que o leitor de tela não anuncia, na resposta longa demais para quem pediu uma sequência curta, na voz que entra bem e volta transcrita de outro jeito, no aviso de segurança que encerra a conversa justamente quando a pessoa precisava continuar falando.

A escala já está dentro da plataforma

Não é necessário conhecer a composição exata de cada plataforma para perceber o problema de escala. As maiores ferramentas de IA já atendem populações comparáveis às de continentes. Dentro de qualquer público dessa dimensão haverá dezenas ou centenas de milhões de pessoas que não correspondem ao usuário abstrato para o qual a interface foi calibrada.

Tratar acessibilidade e neurodivergência como exceção, nesse contexto, não é deixar de atender um caso raro. É adiar decisões de produto que podem afetar uma parcela enorme da própria base.

A pergunta que fica é de prioridade. O que muda quando uma empresa deixa de desenhar para um usuário médio imaginário e passa a reconhecer, desde o início, que modos diferentes de enxergar, ouvir, compreender, falar e reagir já fazem parte do público real?

A resposta depende de pesquisa com as próprias pessoas, dados desagregados e testes de acessibilidade que não terminem na conformidade técnica. A ordem de grandeza, porém, já está diante das empresas. O grupo tratado como nicho pode ocupar algo entre um quinto e quase um quarto da sala.

Se uma ferramenta de IA já tratou sua forma de enxergar, ouvir, compreender ou se comunicar como exceção, você pode contar essa experiência pelo canal privado da Kuaapy. O relato pode ser curto, incompleto ou diferente desta pesquisa.

Fontes e leituras