Miniaturas de personagens de RPG com diferentes equipamentos, em duas fileiras sobre uma mesa.
Ilustração editorial.

Uma pessoa chama seu agente de revisor. Outra chama de guerreiro. Uma terceira monta um grupo inteiro: o mago explora possibilidades, o clérigo cuida da continuidade, o patrulheiro procura pistas.

O trabalho é desenvolvimento de software. A maneira de pensar nele é dela.

Por que seria preciso trocar o mago por um cargo de escritório para a ferramenta aceitar colaborar?

Cada pessoa monta seu grupo

Há quem pense em listas. Há quem pense em mapas, conversas, personagens ou histórias. Uma analogia pode ajudar a lembrar responsabilidades, organizar ideias e dar sentido ao trabalho.

Escolher esse repertório faz parte de usar o software. A ferramenta deveria abrir espaço para isso. Se uma empresa bloqueia uma tarefa apenas porque a organização escolhida não combina com sua filosofia, uma preferência do fornecedor virou uma regra sobre o trabalho de outra pessoa.

A crítica é essa: cada pessoa deve poder desenvolver do seu jeito e escolher como usar a ferramenta no próprio trabalho.

A adaptação faz parte do uso

Na pesquisa de interação humano-computador, Paul Dourish descreve a apropriação: pessoas adotam e adaptam tecnologias às suas práticas, inclusive usando-as para fins além dos inicialmente imaginados. O desenho do sistema pode apoiar ou dificultar esse processo. Personalizar a maneira de trabalhar é parte da relação entre pessoa e ferramenta. Leia o estudo de Dourish.

Outro fundamento vem da teoria da autodeterminação. Ryan e Deci discutem como ambientes que apoiam autonomia e competência favorecem a motivação, enquanto condições controladoras podem prejudicá-la. O estudo não avalia agentes de IA nem estabelece um direito jurídico irrestrito de uso; oferece uma base para perguntar quanto controle um produto impõe sobre quem trabalha com ele. Leia o artigo de Ryan e Deci.

Esses trabalhos sustentam valorizar a autonomia e a adaptação. Nossa posição editorial é que uma maneira incomum de organizar o desenvolvimento, por si só, não justifica um bloqueio. Uma restrição precisa ter uma razão concreta, explicável e passível de questionamento.

O fornecedor pode apresentar um caminho. Quem usa pode escolher outro.

O mago continua sendo um mago. A tarefa continua sendo uma tarefa. E quem está trabalhando continua sendo a pessoa.

Se você já precisou abandonar uma maneira de pensar para conseguir usar uma ferramenta, conte essa experiência pelo espaço de relato privado do post. O que você queria fazer — e o que teve que mudar para conseguir?

Fontes e leituras